"E se o antagonista fosse a sombra do próprio protagonista?"
Confesso que ao escrever o livro, eu não fazia ideia de como seriam as reações das pessoas em geral. Se a maioria iria demorar para perceber o plot twist, ou se iam perceber logo de cara. Então, relendo, refleti: "Em que momento do livro um leitor que entende de simbologia já pode desconfiar?". A resposta foi: primeiro capítulo... Eu ri. Independentemente de quão rápido cada leitor pode começar a desconfiar, fui deixando várias pistas bem óbvias de propósito. A graça está justamente em ficar imaginando como o protagonista vai lidar com isso quando descobrir.
Como a ideia surgiu:
Desde criança eu tentava criar histórias. Inicialmente, por volta de uns 12 ou 13 anos, minha ideia era lançar uma série de The Sims 2 sobre bruxas no YouTube. Seria sobre uma bruxa adolescente que era filha de uma feiticeira da luz e um feiticeiro das trevas, mas com personagens das trevas tão vilões estereotipados que eu não conseguia nem responder o que faziam no tempo livre. Fora que nessa época, além de eu não saber nada sobre narrativa, eu também caía na tendência de fazer vários personagens brancos e com nomes gringos.
Aos 16 anos, comecei a ver algo acontecendo no meu país, que, para mim, foi uma novidade: a polarização. Me intrigava muito pensar em como cada extremo via o próprio lado como herói e o outro como vilão . Na mesma época conheci Death Note, e me empolguei em assistir a outras obras antimaniqueístas, e estudar sobre a manipulação mental em ditaduras e seitas. Aqui a intenção era que os vilões fossem pessoas próximas aos protagonistas. O grande problema dessa época até então, é que tudo que eu achava legal, eu queria botar na saga. A ideia é que seriam 5 livros no mínimo, com muitos personagens, muitos lugares, várias tramas paralelas, muito drama desnecessário, sem foco em temas ou mensagens consistentes... Virou um grande emaranhado de lixo.
Fiquei até os 22 anos insistindo na ideia da saga, achando que iria conseguir dar um jeito de organizar tudo e salvar a ideia... Mas estava tão desgastante e sem sentido que tive que desistir. Foi doloroso, pois claro que eu já havia me apegado aos personagens. Era como se já fossem parte de mim.
Alguns meses depois, com um olhar mais desapegado e objetivo, peguei alguns fragmentos sobre a história descartada, focando em poucos personagens, poucos cenários, e me concentrando primeiramente só na trama principal e na estrutura. Dessa vez, o antimaniqueísmo afunilou mais ainda.
Aos 23 anos, entrei em um momento de introspecção profunda após várias perdas. Me afastei do mundo lá fora, me afastei da espiritualidade, me afastei da internet e passava a maior parte do tempo lendo. Finalmente comecei a colocar a ideia do livro em prática, e minha rotina virou: escrever, estudar sobre escrita, ler livros e assistir filmes de inspiração, escrever, estudar sobre escrita, ler livros e assistir filmes de inspiração. Não é um discurso motivacional, só o relato pouco saudável do meu impulso por escapismo.
Sobre os personagens, inicialmente, todos começaram bem rasos. A ideia era só criar personagens de acordo com a necessidade, e desenvolver a personalidade de cada um de forma que contribuísse para a narrativa. Alex e Soline, por exemplo, começaram sendo simplesmente "garoto denso" e "garota leve". A partir disso, seguindo conselhos sobre criação de personagem que aprendi no teatro, refleti: "Quais pessoas próximas posso usar como base?"... Percebi que meu namorado na época (hoje meu marido) se encaixava muito no perfil, e que eu podia colocar um pouco de mim no protagonista. Claro que com o tempo, eles foram ganhando forma própria. A decisão de manter os gêneros originais partiu de dois princípios:
1. Na prática, não fazia muita diferença.
2. Reforçar a ideia de que os personagens são diferentes de nós, não nosso retrato.
Os interesses e habilidades deles foram se formando enquanto eu escrevia, visando a utilidade. Se o livro está em primeira pessoa e eu quero descrever a espécie da árvore e o quadro na parede, o protagonista precisa saber sobre plantas e arte. Se a trama do protagonista envolve a quebra de expectativa sobre si mesmo, então seria bacana se ele tivesse altas expectativas, e uma visão bem idealizada e fantasiosa do mundo, então ele vai gostar de histórias de fantasia. Em contrapartida, a coadjuvante pode tender a ver o mundo de forma mais realista, para dar um contraste. Se o protagonista ainda não consegue enxergar em si mesmo o quanto a idealização causada pelos livros o prejudica, então ele vai perceber isso primeiro em uma personagem secundária, que vai ser tão iludida quanto ele, só que com livros diferentes, e essa personagem secundária pode trazer tramas secundárias que reforçam a mensagem da trama principal. Enfim, fazer dessa forma funcionou muito melhor para mim, pois foram poucas coisas que precisei reescrever, e não tive que descartar nenhum personagem.
Sobre a sombra:
Refletindo sobre os tempos que vivemos, me inspirando em mitos iniciáticos, e me baseando em algumas experiências próprias, faz total sentido retratar um personagem que descobre que seu maior inimigo é ele mesmo. Na maior parte do tempo é assim, mas nossa natureza insiste em botar a culpa do mal sempre no outro, e esse excesso de falso moralismo nos afasta da empatia e nos faz enxergar o mundo com um viés polarizado.
É interessante perceber o quanto sentimentos conflitantes podem coexistir. Ao mesmo tempo que Alex ama e idolatra Soline, também morre de inveja dela, e ao não querer admitir isso a si mesmo, todo o recalque se manifesta em sua sombra. Chernobog é uma ilusão criada por ele mesmo de forma inconsciente, a partir do desejo de projetar em algo de fora tudo o que ele não aceita que seja seu. Em outras palavras, ele não personificou a sombra de forma intencional e não tem controle direto sobre ela. A ideia é fazer o leitor refletir sobre o que sua sombra faria se ela pudesse se materializar contra a sua vontade.
Enquanto escritora, posso dizer que desde o começo, Alex intuitivamente já desconfiava da possibilidade, mas ignorou tanto todos os sinais que realmente passou a acreditar na mentira que criou para si. "Talvez seja a tal Bruxa do Nevoeiro", do nada se torna "com certeza é a Bruxa do Nevoeiro", mesmo sem nenhuma evidência. A intuição de Soline também percebe os sinais, mas ignora por não conseguir compreender como um feiticeiro das trevas poderia ser tão humano. A cena em que Alex teve certeza de que ele era o feiticeiro das trevas foi quando o espírito de luz olhou para ele. A partir daquele momento, foi escolha dele continuar insistindo na negação.
Sabendo que são luz e sombra, é engraçado notar a dinâmica. O quanto eles naturalmente se atraem ao mesmo tempo que se repelem.
Minha intenção inicialmente era fazer apenas 1 livro, mas não foi o suficiente para desenvolver tudo o que precisava, e surgiu a necessidade de um segundo, fechando em uma duologia. Enquanto o primeiro livro estava sendo escrito, o segundo livro já estava sendo planejado, e modéstia à parte, o segundo foi ficando tão interessante que faz o primeiro livro parecer só uma leve introdução para o que realmente importa.
O que está por vir:
* Os primeiros capítulos serão no Natal, quando Heleno chegará para celebrar com a família e revelará a surpresa que está planejando para a cidade. Porém, também será surpreendido ao encontrar o neto do Benício ao lado de sua neta.
* Alex se aventurará no mundo de suas sombras, dessa vez com auxílio. As grandes aventuras acontecerão no astral.
* Sabrina terá um arco e acompanharemos o desenvolvimento de sua relação com seus irmãos e suas novas amigas.
* Soline enfrentará uma crise de identidade ligada à sua ancestralidade e às mudanças da vida.
* Descobriremos mais sobre o passado das famílias de Alex e Soline.